jan 27, 2015
admin

A vila que descobriu o Brasil

Por  Desbrava(dores) de livros

Se você adora histórias, certamente, irá se encantar por esse livro. A obra é escrita por um importante jornalista que teve atuação em diversos diários, revistas e emissoras, tanto no Brasil como no exterior. A bagagem de conhecimento que o autor tem é incrível e sua obra não fica atrás.

Seis anos antes de Pedro Álvares Cabral desembarcar em Porto Seguro, o mundo dividiu-se ao meio. A monarquia portuguesa e o reino vizinho de Aragão e Castela estavam em uma espécie de corrida espacial; estavam dispostos a enfrentar os muitos perigos do oceano. E então começa a disputa por um espaço já reconhecido e por continentes e ilhas que ainda não haviam sido descobertos.

Há muitos anos, filósofos gregos imaginavam que o planeta tivesse uma forma de globo. Porém, essa teoria ficou comprovada através do português Fernão de Magalhães, em 1519. Dessa maneira, ficou comprovada que a Terra não tinha um ponto final e não era um quebra-cabeça ou um mar sem fim. Fernão, ainda, com apenas 14 anos, assinou o Tratado de Tordesilhas, em 1494.

Um dos tripulantes que estava em uma das treze caravelas que viajaram com destino a Porto Seguro, da esquadra de Pedro Álvares Cabral, ficou incumbido de responder as perguntas do reino de Lisboa a despeito do território descoberto em 1500. As ditas terras que pareciam não ter fim.

Em 1562 os tupis, até então vistos como pacíficos, acabaram se rebelando e declarando guerra aos portugueses, avançando para a região da Vila de São Paulo. As demais tribos indígenas se aliaram aos portugueses, enquanto os franceses, sem se dar conta do valor do Tratado de Tordesilhas, e perdido na divisão dos dois países, ficaram praticamente esquecidos.

A vila que descobriu o Brasil2

Os colonos costumavam se casar com o maior número possível de índias. Em troca, brancos que possuíam armas e conheciam táticas de guerra ajudavam a garantir a segurança dos povos das tribos.

Com a chegada dos primeiros capitães donatários ao país brasileiro, eles passaram a exigir dos índios compromissos que iam contra sua organização tribal. Uma dessas colisões foi a obrigação da catequese, afrontando sua cultura. Isso originou a realização da Guerra dos Tamoios, uma das mais importantes revoltas, envolvendo não apenas a tribo que sofria com a imposição dos capitães donatários; todas as outras que não admitiam o jugo português, resolveram se aliar, tendo o apoio dos franceses.

Com a chegada dos primeiros colonos a São Vicente, em 1532, com a expedição de Martim Afonso de Sousa, eles conquistaram o Planalto de Piratininga, onde acabou se tornando a cidade de São Paulo.

A cidade de Santana de Parnaíba surgiu em uma fazenda situada a oito léguas de São Paulo, próximo ao Tietê e à Cachoeira do Inferno. Conforme explicação do autor, não existe uma documentação sobre a posse da sesmaria, porém, há indícios de que as terras pertenciam a Manuel Fernandes.

Ainda, o autor relata sobre a rivalidade entre as vilas de São Paulo e Santana de Parnaíba. Porém, sem maiores dimensões. O protesto realizado pela Câmara da Vila de São Paulo quando Santana de Parnaíba ganhou o mesmo statusde vila, ficou apenas em reclamações, sem que pudesse ter consequências e medidas posteriores.

A obra é recheada de curiosidades e detalhes ótimos para aqueles que adoram descobrir melhor sobre a origem e o motivo das coisas. E mesmo quem não gosta ficará encantado com a forma que o autor desvenda informações jamais conhecidas por muitos.

É possível notar que Viveiros teve um trabalho regado de muito estudo e dedicação. A obra contém dezoito páginas de referências bibliográficas, além de contar com um índice onomástico. O trabalho é completo e incrível.

A revisão é ótima, a capa é simplesmente perfeita, chamativa, com cores neutras, mas com destaque pelas imagens contidas nela. A diagramação é incrível. No início da obra, podemos ver o mapa localizando a Vila Rica, os tupis, os rios e, a cada capítulo, pode-se contemplar um pedaço desse mapa. Se você ainda acha pouco, existem ilustrações em todo o livro, fotos dos índios, de moradores das vilas e muitas outras.

Um trabalho riquíssimo de Ricardo Viveiros e publicado pela grande editora Geração que teve o cuidado de se dedicar com a estética desse livro que, com certeza, não deixou a desejar em nada.

A obra é obrigatória aos professores, estudantes e amantes de história; é indicadíssima a todos os outros que não gostam, mas que desejam conhecer um pouco mais sobre como foi, na realidade, o descobrimento do Brasil. Desbravem esse livro, vocês não irão se arrepender.

Fonte: Desbrava (dores) de livros

jan 24, 2015
admin

O destino dos livros

Por Jaron Lanier

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Se existe alguma coisa abençoada e bacana em relação à cultura do Vale do Silício é que não temos muitas funções sociais obrigatórias e enfadonhas nas quais você tenha que sentar no lugar indicado, escolher entre carne, frango ou legumes ou ficar escutando brindes tediosos até conseguir ir embora. Mas, mesmo assim, às vezes temos de passar por isso.

Em uma dessas ocasiões eu estava sentado em um sofá branco entre Jeff Bezos, da Amazon, e Eric Schmidt, na época diretor-presidente do Google. Isso foi antes do Kindle. Aqueles dois machos alfa do Vale do Silício se olharam e de repente começaram uma troca ensandecida de estatísticas e casos curiosos sobre o ramo de livros. Era como se eles estivessem compartilhando dicas sobre mais um mercado cheio de “conteúdo” que empresas de tecnologia de rede como as deles estavam prontas a “dividir”.

Fiquei sentado ali, olhando para a frente na maior parte do tempo — um pedaço de cenário de um desenho animado dos anos 1920 em celuloide, colocado entre dois personagens frenéticos espelhando um ao outro, exibido no que parecia o dobro da velocidade.

Na verdade eles não estavam se movendo mais rápido do que o normal, mas a velocidade normal contrastava com o processo soturno pelo qual eu estava passando.

Eu vinha tentando terminar um primeiro livro sobre as formas pelas quais as tecnologias digitais vinham moldando nossa cultura há décadas. Não que eu fosse preguiçoso. Durante os anos em que não entreguei o livro, ajudei a criar diversos setores de tecnologia que agora fazem parte de grandes empresas. Eu me tornei pai, conduzi um programa de pesquisas conjunto com diversas universidades e toquei música pelo mundo. Escrevi muitos artigos. Mas escrever um livro era diferente. O processo de escrita de um livro coloca os autores em uma espécie diferente de tempo, porque um livro representa uma codificação de um ponto de vista. Meu problema era que, mesmo que eu não estivesse pronto para admitir, minhas ideias ainda não tinham amadurecido. Realmente levei décadas para estar pronto para completar You are not a gadget (Você não é um gadget)..

Enquanto isso, aqueles dois titãs do Vale do Silício estavam percebendo que o fato de por acaso eles controlarem alguns computadores centrais na internet os colocava na posição de controlar todo o mundo do livro em poucos anos. A Amazon começou como uma varejista de livros impressos que conseguia oferecer uma seleção maior e preços inferiores à maioria dos livreiros tradicionais em seus prédios de tijolos, mas a verdadeira oportunidade de mudar a maneira pela qual os livros chegavam aos consumidores chegou com o Kindle. Pelo fato de os livros eletrônicos não exigirem a mesma infraestrutura para serem produzidos, armazenados e distribuídos, sua popularidade transformou os negócios da maioria dos editores que contavam com os livros impressos. Além disso, produzir livros eletrônicos tornou-se mais fácil, e quase qualquer um pode ser editor.

Como serão os livros quando o Vale do Silício cuidar deles à sua maneira? Aprendemos um pouco sobre isso vendo o que aconteceu com a música, com vídeos, com as notícias e com a fotografia. Eis alguns cenários prováveis, embora não inevitáveis:

Os autores não vão precisar das editoras para produzir ou distribuir, portanto haverá poucas barreiras a atravessar — a não ser escrever o danado do livro. Isso já se tornou verdade, e ainda vai se tornar mais verdadeiro. Escrever um livro não vai significar muita coisa. Haverá muito mais informações disponíveis em algo semelhante ao formato de um livro do que jamais houve, mas no geral o padrão de qualidade será mais baixo. E o número de autores publicados se tornará semelhante ao número de leitores que pagarão por um livro.

A maioria dos autores vai ganhar a maior parte de seu dinheiro com aparições ao vivo ou consultoria em vez de ganhar com a venda de livros. Autores bem-sucedidos vão ganhar a vida em tempo real e, portanto, tenderão a ser jovens e sem filhos, independentemente ricos ou beneficiários de alguma instituição. Não tenderão a serem estudiosos  independentes com famílias. Enquanto isso, muitas pessoas vão fingir serem autores comercialmente bem sucedidos e vão investir dinheiro para ampliar a ilusão. Uma plutocracia intelectual emergirá gradualmente.

Muitos livros estarão disponíveis apenas por meio de um aparelho específico — um tipo novo de obstáculo — mas alguns bons livros, de autores que, de outra forma, seriam obscuros, se tornarão proeminentes. Quando uma empresa introduzir no mercado um novo aparelho de leitura, haverá um aumento de visibilidade de autores cujos textos só estarão disponíveis nesse aparelho.

Os livros vão se fundir com apps, videogames, mundos virtuais ou qualquer outro formato digital que se tornar notável. A princípio, renderão um bom dinheiro para alguns autores, enquanto ainda forem novidade.

A distribuição de vendas de livros se tornará ainda mais desproporcional: haverá um pequeno número de supervencedores e um enorme número de autores que publicam por conta própria, com quase ninguém entre os dois extremos.

O total de dinheiro que flui para os autores diminuirá para uma fração do que era antes das redes digitais, e será pago por uma combinação de anúncios e taxas pagos por pessoas presas a aparelhos patenteados ou canais de atendimento.

Os leitores se tornarão cidadãos de segunda classe em termos econômicos. (Quando compra um livro de papel, você possui algo que pode revender. Quando um leitor “compra” um ebook, está apenas assinando um contrato de acesso. O leitor não tem capital, nada para revender, nada que possa agregar valor por se tornar um item de colecionador). Ficarão presos a um aparelho ou a um contrato de serviços de telefone celular durante anos. Perderão suas próprias bibliotecas, anotações e até mesmo os próprios textos quando mudarem de provedor de serviços.

Muitos leitores lerão aquilo que for posto na frente de seus olhos por algoritmos de  crowdsourcing, e com frequência não saberão a identidade do autor, nem mesmo os limites entre livros. Será enorme a quantidade de livros gerados por algoritmos e livros escritos em linhas de produção com condições abusivas, porque podem ser feitos de forma tão barata que até mesmo com faixas mínimas de renda se poderia criar uma empresa.

Um livro não será necessariamente o mesmo a cada vez que for lido. Isso vai significar mais informações atualizadas e menor ocorrência de erros de digitação no texto, mas tirará a ênfase do ritmo e da poética da prosa, além de minimizar os riscos de declarar que um livro está completo e expandir o efeito “bolha de filtro”.

Os meios para encontrar material de leitura sediarão as batalhas das empresas. As brigas serão horríveis. A interação entre leitores e livros será disputada e corrompida por spams e enganação.

Quando a maior parte dos livros tiver se tornado digital, os proprietários dos principais servidores de internet que roteiam dados para os leitores, provavelmente controlados por empresas do Vale do Silício, se tornarão mais poderosos e mais ricos do que eram antes.

Um livro não é apenas um artefato, mas uma síntese de pessoalidade individual plenamente realizada com continuidade humana. Para produzir uma obra de verdadeira maturidade é necessário um período de tempo incompatível com o modelo econômico das nossas redes digitais. É fácil acreditar que uma mensagem no Twitter deva ser gratuita — são apenas 140 caracteres. Mas um livro completo de 100 mil palavras demanda tempo, disciplina e capital para ser sintetizado. O modelo econômico de nossas redes digitais tem que ser otimizado para preservar essa síntese ou não vai servir para a humanidade.

Se o Vale do Silício conseguir manipular os livros do seu jeito as pessoas vão pagar menos para ler, o que será celebrado como algo bom para os consumidores, mas exceto pelas costumeiras histórias de pessoas enriquecendo no Vale, à moda de Horatio Alger, os escritores vão se tornar menos seguros.

Ainda que artistas e intelectuais tenham muitas vezes vigiado o futuro de maneira figurada, agora estão se tornando ratos de laboratório ou canários em uma mina de carvão. O que se tornar verdadeiro para os livros nos próximos anos também vai se tornar verdadeiro para a grande parte da economia nas próximas décadas. Os livros vão estabelecer um precedente a ser repetido nos setores de transportes, indústria, medicina, educação e outros igualmente importantes.

Daqui a algumas décadas, quando as impressoras em 3D tiverem fechado as fábricas, enfermeiras robóticas estiverem cuidando de idosos e motoristas tiverem sido substituídos por caminhões e táxis que se dirigem sozinhos, a pergunta realmente importante será “Qual é o papel da pessoa?”

No cerne de qualquer suposta automação estão os dados, e eles surgem apenas dos esforços de pessoas de verdade, não de ciberanjos no céu. Um livro escrito automaticamente sempre será como a Wikipédia, escrita por autores reais que foram homogeneizados. De maneira semelhante, a automação de todos os outros papéis humanos será um cruel passe de mágica que oculta pessoas reais. Por exemplo, será esperado que designers de objetos em 3D “compartilhem”, de forma que novos empregos não sejam criados para substituir aqueles que foram perdidos quando as fábricas fecharem.

No passado, cientistas imaginaram a criação de uma fórmula mágica que tornasse as máquinas autossuficientes. Depois disso, as máquinas iriam montar livros, extrair combustíveis, manufaturar aparelhos eletrônicos, cuidar dos enfermos e dirigir caminhões. Isso talvez levasse a uma crise de desemprego, mas a sociedade se ajustaria, talvez com um giro em direção ao socialismo.

Mas o plano nunca deu certo. Em vez disso, o que parece automação é na verdade algo movido a uma grande quantidade de dados. Os maiores computadores do mundo reúnem dados daquilo que pessoas reais — como os autores — fazem, atuando como os mais abrangentes serviços de espionagem da história, e esses dados são reprocessados para fazer as máquinas funcionarem. Acontece que a “automação” ainda necessita de um número imenso de pessoas! E, no entanto, a fantasia de um futuro centrado em máquinas requer que essas pessoas se tornem anônimas e sejam esquecidas. É uma tendência que reduz o significado da autoria, mas, de maneira lógica, também vai encolher a economia como um todo, ao mesmo tempo em que enriquece os donos dos maiores computadores espiões.

Os livros sempre nos ajudaram a resolver os problemas que criamos para nós mesmos. Agora precisamos nos salvar percebendo os problemas que estamos impondo sobre os livros.

Jaron Lanier, criador do termo “realidade virtual”, é cientista da computação, músico e autor de You are not a gadget (2010) e Who owns the future? (2013), do qual foi retirado o ensaio acima.

Fonte: Revista Serrote

jan 22, 2015
admin

Notas sobre os protestos

As bombas de gás e de efeito “moral” usadas em parte das narrativas das manifestações têm causado a “dispersão” do conteúdo

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De um lado, a polícia. De outro, os Black Blocs. E então o “confronto”, a “dispersão” e o fim do protesto. Entre um e outro, manifestantes pacíficos atingidos pelos “excessos” da polícia provocada a reagir. Essa narrativa dos dois primeiros atos de 2015 contra o aumento da tarifa do transporte público (ônibus, trem e metrô), em São Paulo, contém o risco da repetição e do espetáculo. Reduzidos a um balé perverso, os atos podem esvaziar-se de potência. A banalização do roteiro, como se fosse apenas uma reencenação menor de 2013, mas sem a sua novidade, encobre aquilo que o move, a violência de fundo sofrida por milhões a cada dia num transporte caro e incompatível com a dignidade humana. A opção histórica pelo transporte individual e privado em detrimento do coletivo e público. A vida de gado, transcorrida em horas brutas. Essa é a denúncia explosiva, transgressora, que continua tão atual quanto sempre e tem sido obscurecida. O risco de reduzir os atos ao “confronto” é de, mais uma vez, deixar de escutar o tanto que está sendo dito, inclusive pela violência dos policiais e a dos Black Blocs, mais parecidos do que gostariam.

A verdade, como sabemos, é um bicho difícil de alcançar, nunca está num lugar só e se move. Não é singular, como no início da frase anterior, mas plural. Também neste sentido, os atos contra a tarifa do transporte exigem a máxima atenção. Pode haver tantas armadilhas, bombas de efeito “moral” e artefatos para “dispersar” nas narrativas sobre as manifestações quanto nas ruas. Só algo com muita potência provoca tanto conflito também – e talvez especialmente – no campo minado do discurso, o espaço onde se disputa como a história vai ser contada. E que influencia diretamente o que vai acontecer nas ruas no próximo capítulo. Ou na próxima manifestação.

A diferença dos números é reveladora justamente pela sua imprecisão. Não há sequer uma remota proximidade entre o cálculo de manifestantes apresentado pela Polícia Militar e pelo Movimento Passe Livre, que organiza os atos. Na primeira manifestação (9/1), a PM disse que havia 5 mil pessoas, o MPL falou em 30 mil. Na segunda (16/1), a PM calculou em 3 mil, o MPL em 20 mil. É provável que a verdade dos números esteja em algum lugar entre os extremos, mas nada indica que seja necessariamente no meio. Ainda que não seja incomum nesse tipo de acontecimento, a disputa dos números fala da importância do que se desenrola nas ruas. Se as manifestações de 2015 ganharem um lugar na História, ninguém saberá qual era a adesão no seu princípio.

Os números apontam para a evidência de que, entre o primeiro e o segundo ato, diminuiu a adesão, já que este é o dado convergente nas versões de um e de outro. A redução do número de participantes reforçaria a hipótese de que a ação da PM, ao usar a violência contra todos os manifestantes e até contra quem apenas está passando pela rua, possa estar funcionando: com medo das bombas de gás e das balas de borracha, uma parte dos manifestantes do primeiro ato não teria voltado para o segundo. Neste caso, a PM não cometeria “excessos” por despreparo – ou apenas por despreparo –, como já foi dito, mas como estratégia para esvaziar as manifestações. A meta seria impedir o exercício de um direito constitucional como forma de anular o potencial transgressor da reivindicação.

A única verdade no cálculo do número de manifestantes é a sua imprecisão

Esse roteiro expõe a tolerância da sociedade com a violência cometida pela polícia. Do contrário, como se explicaria que, num regime democrático, a violência da PM contra cidadãos exercendo a sua cidadania seja possível e se repita com tão pouca resistência do conjunto da população? Qual é a quantidade de violência necessária para fazer com que as pessoas deixem o conforto de suas casas para ir para as ruas em massa, como aconteceu em 2013, em reação à repressão? Haveria uma administração da violência, para que não passe do “tolerável” para a classe média?

Em 2013 costumava se dizer que a classe média e o centro conheceram nas manifestações a polícia que vai para as periferias, onde a violência das forças de segurança do Estado sempre foi tolerada, quando não estimulada. A julgar pelos dois primeiros atos de 2015, o uso da força pela polícia, contra manifestantes indefesos, que deveria causar espanto e revolta numa democracia, é mais um dado a mostrar que a violência vai se naturalizando também nesses espaços, como parte de um espetáculo que se assiste com alguma dose de tédio. Nessa naturalização, não há inocentes e cada um sabe a parte que lhe cabe. Está faltando mais gente que se espante com a falta de espanto em todos os setores – e também na imprensa.

A narrativa hegemônica das manifestações usa as palavras “confronto”, “dispersar”, “vândalos”. São palavras encobridoras, usadas para ocultar e não para revelar. Lembram os termos usados para disfarçar a gravíssima crise da água. Neste caso, o governo de Geraldo Alckmin já abusou de expressões como “estresse hídrico” e “restrição hídrica”, esta última para não usar a palavra “racionamento”. A crise da água, para além da incompetência do governo do PSDB, demonstrada na falta de planejamento e de medidas de prevenção, é uma crise socioambiental intimamente relacionada às mudanças climáticas. Mas poucos se lembram disso, porque se lembrar disso significaria ter de tomar medidas muito mais profundas, com reflexos diretos nos interesses do Capital. A tarifa do transporte e a água, os dois temas do momento em São Paulo, tem ainda essa convergência: em seu cerne, ambas exigem uma mudança estrutural. Uma na forma de tratar o ato de ir e vir das pessoas numa cidade – e quem paga por isso e quem lucra com isso. A outra na forma de tratar o planeta e explorar seus recursos naturais – e quem paga por isso e quem lucra com isso, já sabendo que no fim pagaremos todos, como já estamos pagando.

Para encobrir este, que é o conteúdo realmente explosivo, escolhe-se tratá-los apenas na superficialidade, estimulando o senso comum a formular frases como: “Esse povo não tem o que fazer ao ficar brigando por 50 centavos”, no caso da tarifa; ou “Tá faltando água porque choveu pouco. É só São Pedro colaborar que o problema tá resolvido”, no caso da água. É importante que se analise o que acontece nas ruas mostrando aqueles que não estão lá, mas que atuam atrás de paredes, algumas delas de prédios públicos. Assim como é importante que se veja o que está sendo dito para alcançar o que não está sendo dito, e que possivelmente seja o mais importante.

Tanto a crise da tarifa quanto a da água exigem mudanças estruturais, mas são contadas por palavras usadas para ocultar, e não para revelar

“Dispersar”, verbo amplamente utilizado na narrativa das manifestações, não expressa algo tão inofensivo e legítimo como se quer convencer a opinião pública. Há regras para isso, e elas não estão sendo cumpridas. Não é preciso ser um especialista para saber que não se pode encurralar manifestantes e jogar neles bombas de gás e de efeito moral, assim como balas de borracha, sem incorrer em várias violações legais, entre elas a de impedir o exercício democrático de manifestação. Assim como não é preciso ser jornalista para saber que chamar de “dispersão” o que é violência contraria as regras do bom jornalismo e violenta os direitos dos leitores de serem bem informados.

Também vale a pena perguntar que “confronto” é este entre cidadãos desarmados e as forças de segurança do Estado, a serviço do governo. E como e por que isso tem sido torcido para “confronto”. Já a palavra “vândalo” tem sido usada desde 2013, como também os outros termos aqui mencionados, para justificar a violência e borrar as nuances, transformando todos os manifestantes em “vândalos” ou em protetor de “vândalos”. Por que, então, uma parte da imprensa produz e reproduz esse discurso, como se estivéssemos ainda numa ditadura e sob censura, em vez de estar exercendo o espanto e o questionamento da ação da polícia, com base na lei e nas normas? São perguntas importantes, que merecem toda a nossa atenção se quisermos de fato construir uma democracia sólida.

Nessas primeiras manifestações de 2015, parece já existir uma narrativa vencendo a disputa no campo do senso comum, como aconteceu em protestos dos anos anteriores. As manifestações seriam interrompidas por culpa dos adeptos da tática Black Bloc. Não fosse a violência desse grupo composto por não mais do que algumas dezenas de jovens mascarados, a polícia não precisaria exercer a sua força contra os milhares de manifestantes pacíficos. O Movimento Passe Livre, por sua vez, seria o responsável por permitir que os Black Block participem da manifestação, porque se beneficiariam da sua ação para chamar a atenção para o protesto. A responsabilidade pela violência nas manifestações, em vez de ser atribuída à PM, está sendo deslocada para o MPL. Nessa versão, ignora-se vários fatos. Entre eles, a enorme assimetria de forças entre a polícia e os jovens mascarados, assim como a premissa básica de que a PM – o Estado – precisam agir dentro da lei.

Uma parte dos manifestantes parece desejar que os Black Blocs desapareçam dos protestos, porque eles estariam expulsando as pessoas das ruas. Neste sentido, fariam o jogo do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do prefeito Fernando Haddad (PT), ao serem usados para esvaziar os atos, como está sendo dito desde 2013. Esta é possivelmente uma parte da verdade, mas não toda. Há aqui um desafio maior, um realmente difícil, que vale para quem está nas ruas e para quem não está: mesmo discordando dos métodos, ser capaz de compreender a tática Black Bloc como uma manifestação e, principalmente, ser capaz de escutá-la. Ao não escutarmos, nos tornamos reprodutores da violência que acusamos no outro. E permanecemos no lugar das certezas congeladas, uma posição bem ruim para entender alguma coisa.

Ao não escutarmos aqueles dos quais discordamos, nos tornamos reprodutores da violência que acusamos no outro

Quando se olha para os Black Blocs reduzindo-os a jovens violentos, a “vândalos”, como se essa fosse toda a verdade sobre eles, apaga-se a possibilidade de escutá-los. Há também um apagamento deles como pessoas. Um dos discursos mais frequentes dos jovens mascarados é de que sua violência, que para eles seria uma “performance”, denuncia a violência que os mais pobres sofrem no cotidiano das periferias. Sofrem nas mãos da polícia, lá onde as balas não são de borracha, a polícia apontada como o único Estado que se faz presente, mas pela opressão. E sofrem pela ausência do Estado, na forma de educação de má qualidade, saúde de má qualidade, transporte de má qualidade, condições de vida de má qualidade. A esta violência responderiam violentando não pessoas, mas símbolos do capitalismo, como bancos, como forma de chamar a atenção do centro para o que acontece nas margens. Usariam a violência para dar visibilidade a esta violência já naturalizada contra os pobres. E, entre as perguntas que fazem, está a de por que a violência menor que eles cometem chama muito mais atenção do que aquela que seria a violência maior, que tritura a vida de milhões física e simbolicamente dia após dia.

Perder a dimensão política do que estão denunciando os Black Blocs, reduzindo-os a jovens ora manipulados pelo Estado, ora a “bandidos”, é perder muito. Porque eles dizem algo legítimo, e é preciso escutá-los, ainda que se discorde da sua forma de atuação – e eu discordo. Na semana passada, o repórter André Caramante mostrou que a PM paulista matou 816 pessoas entre janeiro e novembro de 2014. É a maior letalidade dos últimos 10 anos. Já os crimes, segundo o repórter, mantiveram-se no mesmo patamar estatístico. Este aumento das mortes cometidas por policiais, em especial nas periferias, onde muitos dos Black Blocs vivem, é uma das denúncias que fazem. Se acreditam que a única forma de serem ouvidos é atirando pedras na polícia, queimando lixo e depredando agências bancárias, isso não diz só deles, mas de toda a sociedade. Para quem se dispõe a complicar suas dúvidas ou diminuir suas certezas, sugiro a leitura de Mascarados – a verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc (Geração Editorial), de Esther Solano, Bruno Paes Manso e Willian Novaes. A parte da socióloga Esther Solano, que acompanhou os Black Blocs por vários meses, é especialmente rica.

Tão importante quanto escutar os jovens mascarados é escutar os policiais. Se nas ruas esses homens e mulheres, alguns deles fantasiados de Robocop, representam as forças de segurança do Estado, não é possível ignorar que são mal pagos e mal preparados, muitos deles sofrendo os mesmos problemas denunciados nos protestos. Se a desmilitarização da polícia é um debate que precisa ser enfrentado, com sua lógica de guerra, que pressupõe não um cidadão, mas um inimigo, esta não é nem a única explicação, muito menos a única solução. São os policiais militares que arriscam a sua vida nas ruas para defender uma parte da sociedade, e isso é bastante claro, da outra parte, que sofre a violência cotidiana dos péssimos serviços públicos, de uma precariedade que a impede também de mudar sua posição nesta mesma sociedade, como acontece no caso da educação. Os Black Blocs e os policiais têm mais em comum do que gostariam. E, o mais importante: nenhum deles inventou a violência da sociedade brasileira.

Entre todas as versões vendidas como verdade neste momento, a mais perigosa é a do “confronto” entre a Polícia Militar e os Black Blocs, ou entre a PM e os manifestantes. Ao se reduzir o protesto ao “confronto”, que acaba sendo a única notícia, ou pelo menos a mais difundida a cada ato, evita-se o debate público sobre o transporte e a mobilidade urbana, a reivindicação profunda que move os protestos. Encobre-se também aqueles que não estão nas ruas, como o governador e o prefeito. Na questão da tarifa, PSDB e PT, os dois partidos que se digladiaram na eleição mais apertada desde a redemocratização, comportam-se como amigos de infância.

Nem a polícia nem os Black Blocs inventaram a violência da sociedade brasileira

Não há como afirmar qual será a potência das manifestações de 2015. Muitos apostam que elas se esvaziem. Outros, que em algum momento as duas crises, a da tarifa e a da água, se encontrem nas ruas como já se encontram no cotidiano. Será uma pena se, submetidos à lógica do “confronto”, não conseguirmos escutar o que dizem os manifestantes – e o que não dizem o governador e o prefeito – e perdermos a oportunidade de um debate público, político, sobre a violência silenciosa que corrói os nossos dias. Não é um espetáculo repetitivo, é a nossa vida que pode se repetir como farsa porque nossa imobilidade parece se estender muito além de não conseguir se movimentar em ruas lotadas de carros e em ônibus lotados de gente violentada. Para se mover, é preciso retomar a conversa e escutar.

Fonte: Brasil El Pais

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