abr 15, 2015
admin

Sumiram com o homem de madrugada

Brasília tem um inverno peculiar. Amanhece gelada, mesmo ensolarada, no meio do dia esquenta bastante e no fim da tarde esfria. A secura e os ventos cortantes desidratam, e enregelam, até a alma mais desavisados. Num desses dias, Carioca chegou à seção, como de costume, às oito da manhã.  Sairia da missão para o oeste baiano. Da sua equipe participava os agentes Valdir, João Pedro, além de um quarto integrante, mais o oficial Jean, no comando. A missão era levar o prisioneiro: Boanerges de Souza Massa, o Felipe, ex-militante da Aliança Libertadora Nacional, a ALN- a mais expressiva- e do Movimento de Libertação Popular, o Molipo. Mineiro de Rancharia, do distrito de Ajicê, era um homem de pele clara, estatura mediana e forte. Muito educado, conduziria os agentes ao aparelho que ocupara, antes da sua prisão.

Com Rui Carlos Vieira Berbet, que usava os codinomes de Silvino ou Joaquim, e mais duas ou três pessoas, entre eles Jeová de Assis Gomes, se instalara no oeste baiano com o objetivo de criar um foco guerrilheiro, exatamente na época que a repressão caçava Carlos Lamarca.

Assumiram a luta armada quando o país dava sinais de endurecimento na perseguição aos subversivos. Idealistas, optaram pela luta armada e eram tratados como terroristas pelos governos militares que tinham, por sua vez, a ilegitimidade como perfil, uma vez, que chegaram e se mantiveram no poder à força, desprezando qualquer prática conceituada na democracia política. O período pode ter deixado sintomas de desenvolvimento, mas à custa do aumento do endividamento do País, de tortura, mortes e desaparecimentos de adversários.

Médico formado pela USP, atendia guerrilheiros feridos. Um dos casos mais famosos envolvendo suas habilidades é a operação que ele teria feito na coxa de um outro militante da ALN – Takao Amano- depois de ele ser ferido durante um assalto. A cirurgia teria sido realizada na casa do casal Carlos Henrique Kanpp e Eliane Zamikhoski, em São Paulo. Passara um tempo em Cuba, num curso de guerrilha, onde, com seus companheiros, fundou o Molipo. Fazia parte do Grupo dos 28 ou Grupo Primavera – também os chamavam Grupo de Ilha. Apenas dois sobreviveram: Ana Corbisier, a Maria, e outro que se tornaria famoso e até viraria ministro no governo Lula, José Dirceu*, o Daniel. Alguns militares afirmam que Daniel foi agente duplo e contribuiu para a queda de quase todos os militantes que estiveram em Cuba.

O Molipo originou-se de uma dissidência da ALN, em 1971. Faziam parte desse agrupamento, além dos treinados em Cuba, pessoas do chamado 3º Exército da ALN, que depois ganhou novas adesões. A ALN sofrera um baque atrás do outro, em São Paulo. Carlos Marighella morreu em 4 de novembro de 1969. No ano seguinte, as Forças de Segurança mataram também seu sucessor, Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, fuzilado por companheiros numa rua dos Jardins, em 23 de março de 1971, suspeito de trair Câmara Ferreira. Suspeita infundada, e que praticamente liquidou a ALN-esfacelada por se envolver em ações cada vez mais violentas, como roubo de carros, assaltos a viaturas policiais e atentados à bomba, empregando todos os militantes disponíveis.

As atividades do Molipo começaram justamente naquele núcleo instalado na Bahia por Boanerges, nas regiões de Ibotirama e Bom Jesus da Lapa.
Em junho de 1971, Carlos Eduardo Pires Fleury contatou Boanerges. Jeová de Assis Gomes e Rui Carlos Vieira Berbet juntaram-se a Massa. Quando a área baiana passou a ser muito vigiada, Boanerges partiu para o Maranhão. Acabou preso em Pindorama, Goiás, e levado para a Capital Federal pelo CIE. Foi acrescentado à lista de desaparecidos e morreu sob a desconfiança de ter delatado companheiros. Carioca sabia que não era verdade. 

A missão do grupo de agentes consistia em ir até o aparelho que Boanerges ocupara para ver se seus companheiros haviam retornado, ou se havia indícios de que o Molipo prosperava. A casa ficava na região de Coribe, cidade de 18 mil habitantes perto de Correntina, nos confins do extremo oeste da Bahia, junto aos contrafortes das serras da Capivara e do Ramalho. Ali eles alugaram o imóvel e moravam com o dono, um velho baiano.

Boanerges foi obrigado a acompanhar a equipe para indicar o caminho. Paisagem desolada, árida. Perto de Posse, ainda em Goiás, a pista virou areia. Qualquer inabilidade do motorista poderia levar o grupo à morte, despencando em um das armadilhas da natureza. A caminhonete afundava na areal e Boanerges era o primeiro a ajudar e a empurrar. Sabia lidar com veículo atolado. Olhando o mapa, escolhiam o itinerário mais direto, pois não havia estradas decentes. O lugar escolhido para pernoitar foi Coribe, perto do Rio Correntes. Boanerges dormiu algemado à cama. Não que ele fosse fugir, somente pró-forma.

Partiram bem cedinho e, poucos quilômetros depois, o preso indicou uma estrada estreita e sinuosa que os levou à casa de madeira roliça, coberta com folhas de babaçu. Lá estava o velho. Ele confirmou a presença do subversivo e de mais dois companheiros que pagaram para se hospedar, mas sumiram tão de repente quanto chegaram:

“Nunca mais vieram aqui”, disse:
Nada a fazer. Ficou caracterizado que não houve condições de trabalho para o Molipo. Nada a fazer, a não ser algemar novamente o moço e retornar a Brasília. O prisioneiro foi entregue à Polícia do Exército, que o levou ao Pelotão de Investigações Criminais.

Carioca continuou sua atividade, normalmente. A Chapada dos Veadeiros tinha passado por uma desapropriação, e uma antiga sede de fazenda foi cedida ao CIE para a montagem de um aparelho, ação da qual ela participou. Região linda, bom clima, ao mesmo tempo erma e perto de Brasília. Na zona rural de Formosa, cidade goiana de 90 mil habitantes, uns 70 quilômetros a nordeste da Capital Federal, foi montado um campo de instruções.

Respondia pela vigilância um garoto, Geverci, que mais tarde se tornaria um agente importante. Semi-analfabeto, o soldado de pele clara, filho de camponeses e com disposição invejável, foi escolhido para cuidar do aparelho, justamente por ter dificuldades de convivência. Preferia a solidão. Muito hábil, foi designado também para auxiliar o cabo armeiro. Juntos, eles faziam a manutenção das armas e do material de disfarce.

Geverci servia como caseiro quando, num belo dia de sol, Boanerges foi transferido para o aparelho rural. A cada semana, três agentes se revezavam para vigiá-lo e, numa das vezes que essa missão coube à equipe do Carioca, esteve em contato com o prisioneiro. Em certo momento, o instinto caçador de um dos agentes, Javali Solitário, se soltou. Montou uma espera para capturar pombos e abater veados que iam ao cocho lamber restos de sal deixados pelo antigo morador. Também ficava à vontade no campo.

Depois de um mês, Carioca voltou. Perguntou a Geverci sobre Boanerges e ouviu como resposta apenas o seguinte:
“Foi feito e enterrado por aí. A equipe veio, levou o homem de madrugada e sumiu com ele.”

Um ano depois, o aparelho foi desativado. Boanerges, de quem nunca mais se falou, descansa em algum lugar próximo a Formosa, em Goiás. Os documentos das Forças Armadas apenas relatam seu desaparecimento, “provavelmente em ação contra o regime”.

Fonte: Livro Sem Vestígios 

Leave a comment

CADASTRE-SE EM NOSSA NEWSLETTER


NOSSOS CONTATOS

Geração Editorial
Rua João Pereira, 81
Lapa - São Paulo – SP
05074-070
Telefone: +55 (11) 3256-4444
geracaoeditorial@geracaoeditorial.com.br