abr 20, 2012
Editora Leitura

Resistência africana – Correio Braziliense

Por Felipe Moraes / Nahima Maciel / Correio Braziliense



Soyinka defende o questionamento de valores externos na cultura africana

 

O Nobel de Literatura Wole Soyinka terá sua primeira obra lançada no Brasil durante a Bienal. Zuenir Ventura e Affonso Romano de Sant%u2019Anna também são destaques hoje
O homenageado da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura tem no teatro um aliado. Como em muitos países africanos durante anos, na Nigéria o teatro popular é um meio mais acessível de representação da vida e da ficção do que o romance. Um pouco por isso, a lista de livros de Wole Soyinka inclua muitas peças. São 21 no total. Na maioria, textos que tratam da realidade africana em forma da fantasias, como a história de O leão e a joia, primeira obra do autor traduzida para o português e com lançamento marcado para hoje na Bienal. 

Na peça, uma mocinha é disputada pelo velho líder de uma tribo Iorubá e por um jovem professor ocidentalizado. Sidi, a bela e egoísta moça, deve escolher entre a tradição e o progresso representados pelos dois personagens masculinos. Dividida em três partes correspondentes a manhã, tarde e noite de um domingo, a peça traz inúmeras referências iorubás, cultura que marca boa parte da obra de Soyinka e que, muitas vezes, dificulta sua tradução e leitura. Primeiro autor negro a ser laureado com o Prêmio Nobel, em 1986, Soyinka, 78 anos, é uma voz politicamente engajada e extremamente lúcida em uma África habitada por profundas problemáticas sociais. 

Ativista, lutou pela independência da Nigéria e contra governos militares. A liberdade da criação artística sempre esteve entre suas reivindicações. Os conflitos entre tradição e progresso aparecem com frequência em suas peças, mas não há uma crítica anticolonialista declarada na postura do autor. Soyinka, claro, não tem bons olhos para o domínio exercido pelo Norte na África Negra, porém, quando escreve, tende a investir em situações que procurem caminhos nos quais as culturas locais e os hábitos coloniais se adaptem um ao outro.

Honestidade e questionamento dos valores ocidentais, ele defende, são as únicas maneiras de preservar a tradição. Para falar da África, ele diz, a literatura precisa ser verdadeira. “Recuperando a história, contestando valores externos que se tem da África , sendo genuinamente fiel ao dar ao mundo um ponto de vista africano”, disse o autor ao Correio, em entrevista publicada em março. Antes da palestra no Auditório do Museu Nacional, às 19h30, Soyinka vai autografar O leão e a joia no estande da Geração Editorial.

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