abr 25, 2014
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Os limites da China on-line

Por Edward Wong
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Quando o romancista Murong Xuecun apareceu em uma cerimônia no ano passado para receber seu primeiro prêmio literário, ele segurava uma folha de papel com algumas das palavras mais incendiárias que já escrevera.

Era uma meditação sobre o mal estar causado pela censura. “A escrita chinesa exibe sintomas de um distúrbio mental”, pretendia dizer ele. “Este é um escrito castrado. Sou um eunuco proativo, me castro antes mesmo de o cirurgião erguer o bisturi.”

Os organizadores da cerimônia o proibiram de proferir o discurso. Sobre o palco, Murong fez um gesto de quem fecha a boca com zíper, e saiu sem dizer palavra.

Ele então fez com o discurso o que havia feito com três dos seus romances de sucesso, todos eles submetidos a uma rigorosa censura: colocou na internet o texto sem cortes. Os fãs foram atrás.

Revolução editorial
Murong Xuecun é o pseudônimo de Hao Qun, 37, um dos mais famosos numa safra de escritores chineses que se tornaram sensações editorais na última década graças ao uso astuto que fazem da internet.

Os livros de Murong são picantes, violentos e niilistas, com histórias de empresários e autoridades envolvendo-se em subornos, brigas, bebedeiras, jogos de azar e programas com prostitutas nas prósperas cidades chinesas.

O simples fato de seus livros serem publicados na China mostra como o setor, outrora muito controlado pelo Estado, está mais voltado para o mercado.

Mas a prosa de Murong inevitavelmente esbarra na censura. O autor se diz um “criminoso da palavra” aos olhos do Estado, e um “covarde” aos seus próprios olhos, por recorrer à autocensura. Ele contou que já abandonou pela metade dois romances que suspeitava que jamais seriam publicados.

“O pior efeito da censura é o impacto psicológico sobre os escritores”, disse Murong.

“Quando eu estava trabalhando no meu primeiro livro, não me importava se ele seria publicado, então escrevi o que quis. Agora, após ter publicado alguns livros, posso sentir claramente o impacto da censura quando escrevo. Por exemplo, penso em uma frase, e aí percebo que ela certamente será suprimida. Então nem a escrevo. Essa autocensura é o pior.”

Suas frustrações o levaram a se tornar um dos mais inflamados críticos da censura na China. Após fechar a boca em novembro de 2010 em Pequim, ele leu publicamente seu discurso proibido três meses depois, em Hong Kong.

Murong deve o seu sucesso comercial ao fato de ter encontrado formas de praticar a sua arte e de angariar leitores na internet, fora da indústria editorial, onde o patrulhamento é maior.

Ele aborda questões políticas em um blog e em um serviço semelhante ao Twitter. Conforme escreve os romances, vai colocando-os na internet, capítulo por capítulo, sob diferentes pseudônimos.

Quando o livro está concluído, ele assina contrato com uma editora. As edições impressas, censuradas, rendem dinheiro, mas as versões da internet são mais completas.

Em 2004, a estatal Rádio China Internacional qualificou o popular romance de estreia de Murong como “um formador de opinião cibernético”. Mas autoridades da cidade de Chengdu, onde a história se passa, denunciaram a obra. A versão sem censura foi traduzida para o inglês (Leave Me Alone: A Novel of Chengdu, que significa “deixem-me em paz: um romance de Chengdu”) e indicada em 2008 ao prestigioso Prêmio Literário Asiático Man.

A internet não oferece libertação total aos escritores chineses, já que há monitoramento. Mesmo assim, ela desencadeou uma revolução editorial, permitindo novas vozes. Os editores podem caçar talentos e comprar os direitos para edições impressas.

Palavras não ditas
O site Rongshuxia é particularmente influente, divulgando romances de Annie Baobei, Ning Caishen e Li Xunhuan (pseudônimo de Lu Jinbo, hoje um importante editor que apoia Murong).

“A internet criou todas -e digo todas- as tendências literárias que decolaram em 2005 e depois”, disse Jo Lusby, editora-gerente da Penguin China.

Murong já escreveu quatro romances e um livro-reportagem, baseados nos anos que passou vivendo em grandes cidades chinesas e trabalhando como consultor jurídico e em outros cargos.

Ele escrevia nas horas vagas e enviava os textos para revistas, mas era sempre rejeitado. Até que topou na internet com um fórum interno da empresa de cosméticos onde trabalhava. Ali amadores colocavam poemas e contos.

“Vi um romance intitulado ‘Minha Pequim’, que me inspirou”, disse. “Pensei: ‘Também posso escrever esse tipo de coisa’.”

Depois que Murong assinou contrato para publicar o romance de Chengdu, foi obrigado a cortar 10 mil palavras. Mas, depois que o livro saiu, ele colocou o original não censurado na web. “A sensação foi libertadora”, afirmou.

Alguns autores são céticos quanto ao efeito dos livros não censurados na internet. Chan Koonchung, autor de Os Anos Gordos, romance distópico publicado em Hong Kong e Taiwan, mas vetado na China continental, disse acreditar que apenas um pequeno número de pessoas na China comunista leria o livro na rede, já que ele não pode ser citado na imprensa ou em outros fóruns.

Murong começou a se amordaçar no segundo livro. “Eu já sabia onde estavam os limites”, disse.

Ele originalmente planejou que os protagonistas tivessem vivido os protestos de 1989 na praça Tiananmen. Mas disse que não se atreveu a ultrapassar essa “intocável linha vermelha”. A versão completa da história está online.

“Agora que estou ciente das minhas tendências à autocensura, tento compensar isso na hora de escrever”, disse Murong. “Posso escrever uma versão, e publicar uma versão ‘mais limpa’.”

Sua amizade com os editores o leva a se curvar à censura. “Não quero colocar meus amigos em apuros”, afirmou. “Se eles dizem algo é arriscado, ou que eles podem perder o emprego por causa disso, eu os deixo suprimirem o que quiserem.”

A luta mais dolorosa de Murong contra a censura ocorreu quando ele trabalhava com um editor na preparação do seu livro mais recente, China: Na Ausência de Um Remédio, que documenta os 23 dias que ele passou investigando clandestinamente um esquema de pirâmide. O livro saiu no ano passado, e foi aclamado. A revista Literatura Popular, fundada por Mao Tse-tung, o premiou.

Mas sua edição envolveu inacabáveis negociações. Até termos como “chineses” tiveram de ser trocados por “algumas pessoas”. Murong gritou com o editor e socou uma parede da sua casa. “Em 2008, a censura foi dolorosa, e pude suportá-la. Mas, em 2010, eu não aguentava mais.”

Zhang Jingtao, o editor, disse que queria “tornar o livro mais adequado à nossa sociedade e aos nossos tempos”. “Meu trabalho é ser o controle de qualidade ideológico”, afirmou.

Em novembro do ano passado, na véspera da cerimônia de premiação da Literatura Popular, Murong passou oito horas preparando o seu discurso.

Ele escreveu: “A única verdade é que não podemos falar a verdade. O único ponto de vista aceitável é que não podemos expressar um ponto de vista”.

O discurso tinha 4.000 palavras. Mas nem uma só foi pronunciada naquela noite.  [Mia Le contribuiu com pesquisa]

***
Reproduzido da Folha de S.Paulo / The New York Times, 14/11/2011
[Edward Wong escreveu de Pequim para o New York Times]

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