nov 13, 2015
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O que o golpe impediu o Brasil de ser.

Por  Fernando Morais 

Os autores nasceram jornalistas. O primeiro, vindo ao mundo em 1940, aos nove anos publica em Terra Livre, jornal dirigido a camponeses, relato sobre a família que trabalhava para um latifundiário em Marília e que ia ter, como almoço de domingo, feijão com farinha. O mais novo, nascido em 1949, aos treze anos já buscava notícias para o Jornal do Dia, de Belém.

Mylton Severiano e Palmério Dória cedo se interessaram pelas coisas do Brasil, por sua história, sua memória, seu povo. Assim, já estavam de olhos bem abertos quando se deu o golpe de 1964, com consequências para suas vidas até os dias que correm. Protagonistas sem querer: o AI-5 em 1968 fulminou a revista Realidade, e lá estava Mylton. Quando não estão “lá”, vão atrás de quem estava. Palmério publicou o único livro sobre Alcino João do Nascimento, pistoleiro presente no “atentado da

Toneleros”, que levaria Vargas ao suicídio; e é de Palmério o primeiro livro sobre a Guerrilha do Araguaia. Juntos, escreveram Honoráveis bandidos e O príncipe da privataria, sobre os governos Sarney e FHC. Estavam no ex-, único jornal a publicar reportagem completa sobre o assassinato do jornalista Vladimir Herz na tortura, em 1975. Estavam na coleção de livros-reportagem Extra — Realidade Brasileira, que estreou em 1977, devassando pela primeira vez os bastidores da Rede Globo, série fechada pela Polícia Federal após o quarto número, “Igreja x Estado”, com documentos em que bispos católicos apontavam crimes do governo militar contra os direitos humanos.

Estivemos juntos, os três, em várias lides, uma delas no ex-, único a publicar em 1975 trecho inédito de meu primeiro best-seller, A ilha, pioneiro trabalho sobre Cuba. No último meio século, os dois colegas não fizeram senão jornalismo, contando histórias e a história do Brasil. Sem ter nascido em berços de ouro, sem dinheiro da Fundação Ford. Neste livro, Mylton e Palmério se baseiam na própria memória, nas publicações que fizeram, nos livros de colegas e em preciosos depoimentos de protagonistas e testemunhas, que trazem fatos inéditos ou jamais percebidos, para contar o que foi que os golpistas impediram o Brasil de ser.

Ilhabela, março de 2014

 

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