jul 9, 2013
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Conto “Tatuagem” de Domingos Pellegrini

tatuagem

TATUAGEM

Eu pescava tranquilo até que os dois vieram se botar bem do meu lado, falando alto depois que botaram as linhadas na água.

— Cara, não podemos pescar mais que cinco quilos, hem, senão o dinheiro não vai dar.

— Quatro quilos, porque a gente vai tomar umas cocas, né.

Assim combinados, ficaram botando e tirando os anzóis da água tão depressa que os pobres peixes, se quiseram beliscar, ficaram só na vontade.

Até que esqueceram das varas, apoiadas em forquilhas, e um deles falou olhando o braço: — Tô a fim de tatuar aqui, cara, mas não sei o quê.

— Uma cobra.

— Por que uma cobra?

— Porque toda gata vai perguntar por que a cobra. Aí você joga aquele lero e ganha a gata.

O outro ficou pensando, sem ver que a boia da sua vara afundava.

— Cobra, cara, já infernizou Adão e Eva, né, e mulher tem medo de cobra, qualé?

— Então vou tatuar um sol, mulher gosta de tomar sol que nem peixe gosta de água.

Aí viram as pontas das varas bicando a água, de tão curvadas, e puxaram com tanta força que conseguiram, os dois, arrebentar as linhas ao mesmo tempo. Ficaram se lamentando, depois foram trocar as varas, voltaram falando da tatuagem.

— Sol é dez, cara, mas lua não será mais romântico?

— Aí vai agradar as gatas, mas a moçada vai pensar que você é gay…

Lançaram os anzóis.

— E uma flor, hem, com forma de sol mas cara de flor!? Aí explico: é que eu sou quente como o sol, gata, mas carinhoso como uma flor.

— E flor é carinhosa, cara? Flor é bonita, é cheirosa e só.

— Uma gata me falou que dar flor é mostrar carinho.

— Dar flor, né, não tatuar flor! Os caras vão te chamar de florzinha.

As boias de novo começaram a pinotear, eles nem viram.

— Precisa ser coisa que a gata olhe e arregale os olhos, cara, dizendo que lindo, por que você tatuou isso?

— Já sei! Que tal uma lua chorando umas lágrimas que viram estrelas?

— Cê tá brincando? Parece coisa de corno ou de bichinha louca! Tem de ser uma coisa que… não sei.

— Pois é.

Enquanto isso, as varas pararam de beliscar, decerto as iscas já comidas. Mas eles continuaram discutindo a tatuagem, até que recolheram as  linhas.

— Vamos tomar aquelas cocas, cara, não dá peixe não.

E foram, discutindo a tatuagem porque, como disse um e o outro concordou, “se vai fazer, tem de fazer bem feito”…

Confira esse e outros contos no livro “A caneta e o anzol“, de Domingos Pellegrini.

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