ADHEMAR
A fantástica história de um político populista desbocado, amado e odiado, inspirador do infame lema “rouba, mas faz”, que participou do golpe militar de 1964, foi posto de lado pelos generais e morreu exilado em Paris, depois de marcar sua época e história do Brasil.

DEUSES DO OLIMPO
Explore o universo mágico da Grécia Antiga e conheça as histórias dos personagens mais famosos da mitologia. Um livro para gente pequena e gente grande tambécm! ( + )

OS VENCEDORES
Quem ganhou, perdeu. Quem perdeu, ganhou. Cinquenta anos após o advento da ditadura de 1964, é assim que se resume a ópera daqueles anos de chumbo, sangue e lágrimas. Por ironia, os vitoriosos de ontem habitam os subúrbios da História, enquanto os derrotados de então são os vencedores de agora. ( + )

A VILA QUE DESCOBRIU O BRASIL
Um convite a conhecer mais de quatro séculos de história de Santana de Parnaíba, um município que tem muito mais a mostrar ao país. Dos personagens folclóricos, tapetes de Corpus Christi, das igrejas e mosteiros, da encenação ao ar livre da “Paixão de Cristo”. Permita que Ricardo Viveiros te conduza ao berço da nossa brasilidade. ( + )

O BRASIL PRIVATIZADO
Aloysio Biondi, um dos mais importantes jornalistas de economia que o país já teve, procurou e descobriu as muitas caixas-pretas das privatizações. E, para nosso espanto e horror, abriu uma a uma, escancarando o tamanho do esbulho que a nação sofreu. ( + )

CENTELHA
Em “Centelha”, continuação da série “Em busca de um novo mundo”, Seth vai precisar ter muita coragem não só para escapar da prisão, mas para investigar e descobrir quem é esse novo inimigo que deixa um rastro de sangue por onde passa. A saga nas estrelas continua, com muita ação de tirar o folego! ( + )

MALUCA POR VOCÊ
Famosa na cidade pelos excessos do passado, Lily terá de resistir ao charme de um policial saradão oito anos mais jovem que acaba de chegar na cidade. Prepare-se para mais um romance apimentado e divertidíssimo escrito por Rachel Gibson.. ( + )

NOS IDOS DE MARÇO
A ditadura militar na voz de 18 autores brasileiros em antologia organizada por Luiz Ruffato. Um retrato precioso daqueles dias, que ainda lançam seus raios sombrios sobre os dias atuais. ( + )





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jun 1, 2015
admin

Em livro, Daniela Arbex desmente suposto suicídio do guerrilheiro Milton Soares de Castro na ditadura.

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RIO – Na página 212 do volume III do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), divulgado no ano passado, aparece o retrato 3×4 de um jovem de cabelos pretos e rosto sério. Ele é Milton Soares de Castro, único civil a participar da guerrilha do Caparaó, na divisa dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a primeira tentativa de levante armado contra a ditadura civil-militar brasileira. Castro foi preso no dia 1ª de abril de 1967, junto com outros sete companheiros, e levado para a Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora (MG). No dia 28 de abril, apareceu morto. Versão oficial: suicídio. Seu corpo sumiu. Milton Soares de Castro se tornou um desaparecido político. E é assim que o guerrilheiro é identificado no relatório final da CNV.

Contudo, desde 2002 a jornalista mineira Daniela Arbex vem reescrevendo as versões oficiais sobre a morte e o desaparecimento do militante político. Numa premiada série de reportagens publicada na “Tribuna de Minas”, de Juiz de Fora, ela relatou que o corpo de Castro estava enterrado na sepultura 312, quadra L, do cemitério municipal da cidade. Enterrado numa cova rasa, como se fosse um indigente. Depois de 35 anos, documentos da empresa funerária e da prefeitura comprovavam a localização do corpo. No entanto, como a família optou por não fazer a exumação, a CNV continuou a considerá-lo um desaparecido.

TESE SEMPRE FOI QUESTIONADA PELA FAMÍLIA E AMIGOS

A história que Daniela começou a contar em 2002 se encerra agora com o livro recém-lançado “Cova 312 — A longa jornada de uma repórter para descobrir o destino de um guerrilheiro, derrubar uma farsa e mudar um capítulo da história do Brasil” (Geração Editorial). Na obra, a jornalista desmonta a tese criada pela ditadura de que Castro se suicidou, sempre questionada por sua família e companheiros, além de recuperar a trajetória da guerrilha do Caparaó e da Penitenciária de Linhares, um dos principais centros de detenção do regime autoritário e pouquíssimo conhecido, por onde passaram nomes hoje notórios, como o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, e o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda.

— Naquela época, avancei até a localização da sepultura, o que foi uma grande descoberta. Usaram até o nome de um sargento que já tinha dado baixa do Exército para enterrar o corpo. Falo sempre que essa história tinha terminado no jornal, mas não dentro de mim. Faltava coisa para ser contada. Como ele morreu? A versão do suicídio era contestada por todo mundo. Precisava de uma prova forte — conta Daniela, em entrevista por telefone da redação da “Tribuna de Minas”. — Foi nessa nova investigação que cheguei à prova fundamental do assassinato, a foto da necropsia do Milton. Consegui localizar os peritos e provar o assassinato dele. E, mais do que isso, o livro acaba abrindo as portas da Penitenciária de Linhares. Resgato a rotina da penitenciária, um dos centros de detenção mais importantes e mais desconhecidos da ditadura.

Autora de “Holocausto brasileiro” (Geração Editorial), livro-reportagem em que investigou a história do Hospital Colônia, um hospício em Barbacena (MG) onde 60 mil pessoas morreram no século XX, a jornalista conta que tinha apenas uma vaga ideia de que o presídio da cidade havia funcionado como prisão política e não conhecia a história do guerrilheiro. Ela afirma que a escolha dos temas decorre não do fato de ser mineira, mas da busca por histórias ainda não contadas.

— Meu próximo livro não será uma história local, mas nacional. O que me move é lutar contra o silenciamento, desenterrar e trazer à tona o que a sociedade esquece.

OPERÁRIO QUE VIROU GUERRILHEIRO

Milton Soares de Castro cresceu numa família humilde em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul. Apesar de só ter completado o primário, sempre se interessou por política. Em 1965, aos 23 anos e já morando em Porto Alegre, ele passou a frequentar reuniões na Associação Operária e Cultural da Vila Jardim, bairro popular que recebia os recém-chegados à capital. Foi nesses encontros que conheceu as ideias de Marx e Engels e seus futuros companheiros de luta política, como os ex-sargentos Amadeu Felipe da Luz Ferreira e Araken Vaz Galvão. Os militares, cassados após se rebelarem contra o golpe em 1964 e ligados ao ex-governador Leonel Brizola, defendiam a derrubada do governo militar pelas armas.

O jovem operário abraçou os ideais e a luta armada. Em setembro de 1966, Castro partiu para a Serra do Caparaó, na divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo. Primeiro dos 13 membros do grupo a chegar, sua missão era fazer o reconhecimento do local onde a guerrilha deveria se instalar. No entanto, as baixas temperaturas da região e a estrutura precária foram minando as forças do grupo. No Natal de 1966, houve as primeiras desistências. Em março, dois membros foram presos pela Polícia Militar mineira após desertarem. Em 1º de abril, os oito combatentes que sobraram foram presos sem resistir. Era o fim da aventura no Caparaó.

— Esses homens estão praticamente no anonimato. Há um livro sobre a guerrilha (“Caparaó: a primeira guerrilha contra a ditadura”, de José Caldas da Costa, lançado em 2007) e só. Sobre o Milton, não se sabia quase nada, apenas que ele era considerado o menos preparado por não ter formação militar — diz Daniela Arbex.

A transferência dos presos no Caparaó e de outros militantes políticos para a Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora, não foi à toa. É na cidade que está localizada a Auditoria da 4ª Região Militar, que guarda mais de 100 mil processos de 1821 até hoje. A auditoria concentrou as investigações abertas em Minas durante a ditadura contra os acusados de subversão. A reunião de tantos militantes no presídio gerou novas formas de organização e resistência à solidão e à dura rotina do cárcere.

‘REPÚBLICA COMUNISTA DE LINHARES’

Linhares foi a última parada de membros de diferentes grupos da luta armada, como a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e o Comando de Libertação Nacional (Colina), após passarem por sessões de tortura em instalações policiais e militares. Muitos chegavam destruídos física e emocionalmente à penitenciária, onde encontravam solidariedade e acolhimento dos companheiros que lá estavam, conta a jornalista. Organizados em coletivos setoriais, tudo era discutido e votado. Os alimentos vindos de fora eram repartidos por todos. O então estudante Marco Antônio Azevedo Meyer, militante do Colina, apelidou o presídio de “República Comunista de Linhares”.

Foi da penitenciária mineira que saiu também a primeira denúncia feita por presos políticos sobre as atrocidades cometidas pelos militares, o “Documento de Linhares”. Escrito no fim de 1969, o manuscrito foi apreendido pelos guardas. Contudo, em março de 1970, começou a circular nos Estados Unidos. Não se sabe quem conseguiu colocar o documento em circulação.

— Conversei com as pessoas que assinaram a denúncia. O documento ganhou importância mundial e elas sofreram com o vazamento. Depois desse episódio, começaram a censurar até as visitas. Colocavam grades duplas, o chamado parlatório, para separar os familiares e os presos. Foi cruel demais. Além de toda tortura e violência, eles eram impedidos de abraçar os próprios filhos.

Entre 1964 e 1979, o único preso a morrer em Linhares foi Milton Soares de Castro. A notícia do seu suicídio correu o país e ficou na memória de quem passou pelo cárcere de Juiz de Fora. Contudo, seus companheiros e sua família nunca acreditaram na versão oficial. O guerrilheiro do Caparaó foi retirado da sua cela para depor na noite de 27 de abril de 1967. Na manhã seguinte, durante a revista, seu corpo foi encontrado pendurado com o lençol enrolado no pescoço. Da madrugada anterior, restou um depoimento de duas páginas assinado por Castro.

As inconsistências da versão de suicídio eram muitas e a jornalista decidiu revisá-las. No ano passado, Daniela recebeu de Gilney Amorim Viana, então assessor da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e o preso político que mais tempo ficou em Linhares, parte do inquérito policial militar aberto no dia da morte do guerrilheiro, que ela nem sabia existir após mais de dez anos de investigação. Depois de varrer arquivos em Minas, Rio e Brasília, descobriu onde estava o processo original: no Superior Tribunal Militar. Faltava romper as barreiras da burocracia.

— As tentativas de obstrução me impressionaram. Tudo é muito burocrático. Tive que justificar o pedido de informação e o tribunal levou dois meses para me dar a autorização. Vivemos em uma democracia, mas as dificuldades permanecem.

FIM DA FARSA DO SUICÍDIO

Nos anexos, havia 15 fotografias feitas durante a necropsia. O laudo apontava morte por enforcamento, mas não falava em suicídio. A farsa começava a cair. A jornalista foi atrás dos três responsáveis. Um já estava morto, outro não quis colaborar. Já o ex-perito da Polícia Civil, Luzmar Valentim de Gouvêa, de 78 anos, não lembrava do caso, mas analisou as imagens e foi categórico: as marcas no pescoço eram compatíveis com enforcamento, não com suicídio. E havia outro problema: como um homem com mais de 1,80m se enforcaria numa torneira a 1,20m do chão e um pano de 30cm? Gouvêa garantiu que era impossível. Entretanto, permanecem obscuras as circunstâncias da morte de Castro — que guardam semelhanças com a do jornalista Vladimir Herzog anos depois, em 1975, no DOI-CODI , em São Paulo.

— Os depoimentos dão conta do despreparo do Milton para enfrentar a prisão, os interrogatórios. Os companheiros do Caparaó eram mais treinados para se controlar. Há relatos de que ele teve uma discussão com o major Ralph Grunewald Filho, que presidia o inquérito. O Milton não aceitou as provocações e partiu para o embate. Mas ainda há muitas contradições sobre como ele foi encontrado morto. Isso tudo é intrigante — afirma Daniela.

Entre tantas dúvidas, há uma certeza: Milton Soares de Castro foi mais um morto sob custódia do Estado brasileiro durante a ditadura militar.

Fonte: O Globo 

maio 20, 2015
admin

“Abandonado” é lançado em São Paulo – confira as fotos!

O livro  “Abandonado, de Vinícius Pinheiro, foi lançado ontem (19) em São Paulo.

Confira quem passou por lá!

maio 18, 2015
admin

Desenterrando segredos de Linhares

Daniela Arbex, repórter especial da Tribuna, lança seu segundo livro, ‘Cova 312’, nesta quarta, abrindo as celas da principal penitenciária política do país.

POR MAURO MORAIS

“Tu trouxeste o Milton contigo”, disse Gessi, a irmã do militante político Milton Soares de Castro, ao conhecer, depois de mais de dez anos da primeira ligação telefônica, a jornalista Daniela Arbex. Naquele momento, a repórter que já havia localizado – em reportagens publicadas na Tribuna, em 2002 -, os restos mortais do jovem gaúcho, também levava verdades. Segredos enterrados por mais de 50 anos sobre o único civil preso na guerrilha da Serra do Caparaó. Mistérios escondidos na história oficial sobre o único preso político encontrado morto dentro de uma cela da Penitenciária de Linhares. Em “Cova 312″ (Geração Editorial, 344 páginas), seu novo livro-reportagem, cujo lançamento nacional acontece nesta quarta, dia 20, às 19h, na Livraria Saraiva do Independência Shopping, em Juiz de Fora, Daniela não apenas resgata Milton, mas outros tantos confinados de um dos presídios políticos mais importantes do Brasil.

No encalço da História do país, a autora revela a participação da cidade na ditadura não somente por ter servido como ponto de partida das tropas militares do general Olímpio Mourão Filho, que na noite de 31 de março de 1964 seguiram rumo ao Rio de Janeiro e ao golpe. A cada página, uma nova cela do enorme presídio é aberta. Saem dali personagens que hoje ganharam destaque na política nacional, como o atual governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel. Por detrás das grades, também surge o Documento de Linhares, primeiro registro a ganhar repercussão internacional denunciando torturas e descasos nos porões da ditadura. Daniela faz conhecer, então, os horrores que sempre moraram ao lado e viveram extremamente silenciados.

Autora de “Holocausto brasileiro” (Geração Editorial, 2013), título que já superou a marca dos cem mil exemplares vendidos, finalista do Prêmio Jabuti (2o lugar) e vencedora do prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Daniela mais uma vez sai para o mundo carregando na mala sua cidade de origem e, dessa vez, seu lugar de trabalho. Personagem de relevo na nova obra, a Tribuna serve como cenário e como porta-voz de uma investigação que desmascarou uma farsa sustentada por anos: a real forma da morte de Milton. “Minha história se confunde com a do jornal. Estou aqui há quase 20 anos, e foi ele que me permitiu viver o que poucos repórteres no Brasil viveram. Para mim, o jornal é imenso, o mais importante”, emociona-se a repórter.

Com prefácio de Laurentino Gomes, vencedor do Jabuti de 2014 (Daniela, com seu trabalho de estreia ficou em segundo lugar), “Cova 312″ é a continuidade da premiada série homônima do início dos anos 2000. “O tema pode parecer pesado e, como trata de episódio ainda mal resolvido da História recente brasileira, difícil de digerir. Seria assim, não fosse a capacidade prodigiosa de Daniela Arbex de transformar histórias trágicas em uma narrativa fluida, atraente, poética e, em alguns momentos, até divertida”, comenta o autor da best-seller trilogia “1808″, “1822″ e “1889″. “Aos poucos, ela vai revelando também a cinzenta rotina da prisão: torturas, resistência, amores, sofrimentos, pequenas e efêmeras alegrias que jamais se completavam”, pontua, na orelha da obra, o publisher da Geração Editorial, Luiz Fernando Emediato, que diz ser a história “temperada de tragédia e emoção”.

Após mais de um ano de novas investigações, que ocorreram em Brasília, Minas, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, Daniela escreve, com justiça e sensibilidade, o que o tempo tentou apagar. Registra seus passos jornalísticos ao percorrer os corredores de um presídio, desenterrando a história de anônimos e conhecidos, de Juiz de Fora e de uma nação.

 ‘Ganhei o mundo da sala da minha casa’ 

Entrevista Daniela Arbex, repórter especial e escritora

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A cova onde estava enterrado o corpo do militante político Milton Soares de Castro estava bem ali, bastante próxima da antiga redação da Tribuna, de onde Daniela Arbex saiu para encontrar, no arquivo do Cemitério Municipal, os registros do morto acusado de suicídio na Penitenciária de Linhares. O percurso da repórter está todo exposto em sua “Cova 312″ (Geração Editorial, 344 páginas), bem como sua rotina na redação e suas aflições mais íntimas. “Fui correndo a pé para o jornal que ficava a alguns quarteirões dali. Na entrada, meu chefe conversava com alguém. Passei voando, mas ainda o ouvi dizer: – Ela deve ter encontrado alguma coisa”, escreve, narrando o momento seguinte à descoberta da sepultura.

Como uma ode ao veículo que a acolheu em 22 de janeiro de 1996, recém-formada, Daniela descreve em detalhes, e identificando seus colegas, o espaço que, pouco a pouco, foi construindo. Conta da relação com seus editores, com os fotógrafos e com as fontes. Traça o processo jornalístico em seu incansável empenho. “Deixei a escola com a esperança de transformar a realidade social por meio do meu trabalho . Dos focas, eu era a mais otimista. Com quatro anos de jornal, ganhei meu primeiro Prêmio Esso pela série ‘Dossiê Santa Casa’ e passei a acreditar que sabia fazer jornalismo, aquela arrogância típica dos que nada sabem. Uma coisa, entretanto, me salvava dos meus achismos: a paixão pela profissão que havia abraçado”, escreve.

Sempre entusiasmada, Daniela vive com os olhos brilhando. Cada reportagem é uma grande oportunidade para demonstrar sua paixão. Com sua voz calma, ela reflete, em entrevista, sobre a carreira e se emociona: “Tenho conseguido fazer coisas que sempre sonhei em fazer no jornalismo, de dentro do meu quintal. E isso não me diminui. Tenho muito orgulho.”

Tribuna – “Cova 312″ faz uma ode ao jornal no qual trabalha. Desde o início pensava em contar essa relação?

Daniela Arbex – Não pensava em fazer uma homenagem, mas não tem como contar minha história sem contar a história da Tribuna. Esse jornal me permitiu viver o que poucos repórteres no Brasil viveram. Para mim, ele é imenso, o mais importante. É o lugar que me deu a chance de crescer e de contar as histórias que queria contar. Um jornal que muitas vezes foi muito maior do que ele mesmo, ao contar histórias muito maiores do que a estrutura que tinha. E ele bancou essas histórias, a todo custo, para que pudéssemos trazer para a sociedade verdades encobertas. Tenho muita gratidão. As pessoas que coloco no livro não apenas me acompanharam, mas me fizeram crescer.

– Era sua intenção explicitar, sem ser didática, seu processo jornalístico?

– Fiquei muito feliz quando o primeiro revisor do livro, de São Paulo, leu e falou que era uma aula de jornalismo. Não tenho essa pretensão, até porque o que faço é muito simples. Não existem segredos. Esse livro não tem off, conto todos os passos que fiz para chegar onde cheguei. O resultado pode parecer grandioso pela persistência. Jornalismo não tem receita, tem inspiração, mas também muita sola de sapato gasta. É preciso ter vontade de fazer a diferença, de reconstruir as histórias, transformando.

 É com a apuração que chegou aos muitos detalhes?

– Um bom texto começa de uma boa apuração, que resolve o grande dilema, de como abrir e fechar uma reportagem. Só a apuração não faz um bom repórter, mas não existe repórter sem boa apuração.

– Outra grande homenageada, além dos militantes e seus parentes, é Juiz de Fora. Porque não quis sair?

– É um privilégio não ser obrigada a sair de sua cidade para poder ganhar o mundo. Pude ganhar o mundo da sala da minha casa. E me incomodava muito, e ainda incomoda, ouvir que só existe vida profissional no eixo Rio-São Paulo. Nosso planeta é uma aldeia. Os prêmios que a Tribuna já ganhou, e que grandes jornais não alcançaram, mostram que jornalismo de qualidade se faz em qualquer lugar, desde que existam pessoas comprometidas.

– Esse momento que vive, de intenso reconhecimento, era um projeto?

– Hoje sim. Sempre sonhei e tive a ambição de escrever histórias que pudessem marcar as pessoas, mas nunca planejei. Sempre quis ser uma jornalista reconhecida e que fizesse a diferença no país. Esse era meu projeto na faculdade, mas nunca pensei por qual caminho seguiria. Tudo aconteceu naturalmente, apesar de a escrita de um livro ser muito dolorosa e angustiante. Em contrapartida, é muito gratificante atingir as pessoas. Recebo mensagens do país inteiro sobre o “Holocausto brasileiro”.

– Como aconteceu seu despertar dentro da redação para o tema do “Cova 312″?

– Sempre quis escrever uma matéria sobre a ditadura. Só a conhecia pelos livros. Como jornalista, e sabendo da função social que temos, sempre quis fazer uma matéria que pudesse contribuir. Muitos arquivos continuam fechados, e segredos, encobertos. Conversando com o deputado federal Nilmário Miranda, que depois se tornou ministro de Direitos Humanos no Brasil, ele me falou sobre a morte de um militante do Rio Grande do Sul, encontrado morto dentro de Linhares e cujo o corpo nunca havia sido localizado. Foi através do Milton que acabei conhecendo a história da ditadura e da Penitenciária de Linhares.

– Você redimensiona o lugar e o papel de Linhares, o que ainda era desconhecido. Qual a relevância dele?

– Com a reviravolta da investigação jornalística, que me levou a fazer uma nova apuração para escrever o livro, acabei descobrindo que Linhares foi uma das penitenciárias políticas mais importantes no país e mais desconhecida. A penitenciária confinou mais de 300 militantes políticos, figuras que ganharam destaque no Brasil. O governador de Minas, Fernando Pimentel, e o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, foram presos lá, fora os anônimos. O livro também resgata o momento no qual o embaixador alemão foi sequestrado no Rio de Janeiro. Da lista de 40 nomes de militantes para serem trocados por ele, seis estavam em Linhares.

– Um dos grandes momentos é justamente quando mostra essas pessoas que sofreram tanto. Essa humanidade é o que te seduziu para a história?

– O personagem principal é Milton Soares de Castro, o guerrilheiro desaparecido. Localizamos a sepultura e conseguimos, com a continuidade das investigações, derrubar uma farsa de 50 anos. Mas o livro também é a reunião das histórias de pessoas que foram presas em Linhares, anônimos ou não. Descobrimos que nesse lugar tinha os coletivos formados por presos políticos, encontros incríveis e as contradições das relações vividas. Nessa penitenciária, houve greve de fome e uma tentativa de motim que quase resultou na morte de várias lideranças. É um presídio que não pode continuar desconhecido. O livro coloca a gente dentro da vida desse guerrilheiro, dentro dessa penitenciária e dentro da redação, revelando todos os bastidores.

– “Cova 312″, depois de mais de 50 anos, consegue trazer revelações?

– O livro não é a série de matérias, ele cresceu demais porque, no meio do caminho, houve uma grande reviravolta, que me obrigou a investigar tudo de novo, o que acabou me fazendo ir muito mais longe do que pude naquela época. O livro é um desfecho para uma história grandiosa, uma pesquisa de dez anos. Apesar de as matérias terem se encerrado no jornal, essa história nunca terminou dentro de mim. Ficava pensando como foram os últimos passos do Milton. O que aconteceu? Será que o mataram? Tinha vários documentos que sugeriam seu assassinato, mas não tinha uma prova maior, e agora consegui. Isso mostra que o jornalismo é essencialmente investigativo.

– No livro existem partes quase ficcionais, mas tudo fundamentado. Como chegou a situações e diálogos que não presenciou?

– Fiz uma reconstituição de quando o Milton estava dentro da cela e a rotina dele ali. Ele não estava vivo para me contar, mas consegui chegar muito próximo de sua vivência através de depoimentos e documentos inéditos. O livro é muito recheado de diálogos e de muita ação, mas tudo baseado na apuração. Fiz um cruzamento de informações para que conseguisse quase estar ali. Fiquei cerca de sete meses fora do jornal, de licença, porque era impossível contar essa história com a força que ela tem estando em outra rotina. Mergulhei na vida desses presos políticos, senti o cheiro da comida, o medo e ri com todos. O “Cova 312″ não é uma história de bons contra maus, de militantes contra militares. É uma história de gente com todas as suas complexidades e fraquezas. Não tenho, não tive e não terei a pretensão de contar a história da ditadura, porque isso, jornalistas que me antecederam, com muito mais qualidade e maturidade, já fizeram. O livro é sobre a resistência de pessoas naquele período e as marcas que ficaram.

– O corpo do Milton sempre esteve no mesmo lugar, e foi você quem o desenterrou.

– Às vezes, o óbvio é tão óbvio que acaba sendo negligenciado. O maior erro de um jornalista é ser negligente. É preciso buscar em todos os lugares, aprender a olhar. Não há ideias pré-concebidas. Isso é um campo minado. O desfecho do meu livro nasceu no evento de entrega dos documentos das pessoas que tinham sido presas em Juiz de Fora. Fui ver a auditoria militar devolver tudo. Estava ali para sentir a emoção das pessoas. Numa frase que ouvi, tive a ideia do fim da “Cova 312″. Sempre pensei que o bom jornalista é aquele que participou de grandes coberturas como a de uma guerra. Nunca cobri uma, mas todos os dias testemunho a nossa guerra urbana. Descobri que existem muitas histórias incríveis esperando para serem contadas. Basta apenas que alguém se disponibilize a buscá-las.

“COVA 312″

Lançamento do livro de Daniela Arbex

Nesta quarta, às 19h, na Livraria Saraiva (Independência Shopping)

Fonte: Tribuna de Minas

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