jan 20, 2015
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Aprendiz de imperador

Por Priscila da Costa Pinheiro e Sérgio Augusto Vicente

Exercícios de caligrafia do jovem Pedro II eram carregados de ensinamentos morais, religiosos e políticos.

O segundo imperador do Brasil acabara de completar 7 anos de idade, e lá fora o clima de instabilidade política se espalhava. Em debate, disputas de poder e diferentes projetos de nação. Caramurus restauradores, liberais exaltados e liberais moderados lutavam pelo controle da Regência. Enquanto isso, em sua rotina no Paço de São Cristóvão, Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga – ou apenas Pedro II – terminava mais uma de suas lições de caligrafia. Sob a orientação do mestre Luís Aleixo Boulanger, copiara a seguinte lição: “A necessidade de Religião e Instrução para a estabilidade dos Impérios, riqueza e glória dos Imperantes, é especialmente consignada na Sagrada Escritura”.

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Quem se depara com os manuscritos produzidos pelo imperador do Brasil nos primeiros anos de vida, na primeira metade do século XIX, surpreende-se com a beleza e a sofisticação de sua letra. Mas não só: também chama a atenção o teor moral dos ditados que ele repetia copiosamente.

Tamanha destreza com a pena não se manifestou de forma natural, espontânea. Pelo contrário, sua caligrafia revela os reflexos da obstinada disciplina e da pesada rotina de estudos de um garoto que se preparava para assumir as rédeas de uma nação quase tão jovem quanto ele, e tão repleta de percalços. E as mensagens transmitidas naquele exercício diário eram bastante sisudas para uma criança que começara a ler há apenas dois anos. Logo no primeiro momento, salta aos olhos do leitor o destaque atribuído à religião e à instrução cristã no grande desafio de se construir uma nação estável e gloriosa. O conteúdo não poderia ser mais apropriado para a situação em que o “menino imperador” e o país se encontravam.

O sétimo filho de D. Pedro I e de D. Leopoldina foi reconhecido como herdeiro do trono em meados de 1826. Isso porque, dos seis filhos anteriores do casal imperial, apenas as quatro meninas sobreviveram. Poucos dias após completar seu primeiro ano de vida, o pequeno príncipe perde a mãe, que já se encontrava doente. No dia 7 de abril de 1831, em meio à intensa agitação política, D. Pedro I abdica do trono em favor do filho, e retorna a Portugal. Pedro II, então com 5 anos de idade, permanece no Brasil com as irmãs Januária, Paula e Francisca. Brasileiro por nascimento, o menino passa a ser visto como o genuíno representante da nação.

Não foram poucas as responsabilidades que caíram em seu colo. As elites políticas do país depositavam nele as esperanças de consolidação do Estado brasileiro, de manutenção do regime monárquico e da unidade territorial. Conhecido como “órfão da nação”, o menino viveu cercado por adultos responsáveis por lhe fornecerem uma educação rígida e austera. O objetivo era formar um monarca ilustre, amante da moral, das letras e da ciência, que se posicionasse acima das paixões.

A preocupação tinha raízes num passado recente: era preciso que o novo chefe nacional não carregasse a menor semelhança com a personalidade do pai. A imagem do progenitor, afinal, ficara marcada pelos escândalos causados por comportamentos pouco afeitos à moral e aos bons costumes da época, como as explícitas traições cometidas contra a esposa, D. Leopoldina. Tutores e mestres pretendiam influenciar na formação do caráter de Pedro II e transformá-lo em um chefe de Estado perfeito: um monarca humano, honesto, constitucional e tolerante.

O conteúdo de suas lições de caligrafia traduzia essas intenções. Em 1833, o pequeno imperador escrevia: “Beneficência/ Bom é que sustentes o justo; mas também não retires a mão daquele que o não é porque o que teme a Deus nada despreza”. A lógica da moralidade religiosa se faz presente mais uma vez: a tendência para fazer o bem aparece como uma importante virtude do homem cristão.

Não se pode menosprezar a influência sobre o imperador de alguns dos personagens envolvidos no processo de sua formação inicial. José Bonifácio de Andrada e Silva, seu primeiro tutor, foi nomeado para o cargo por D. Pedro I, um dia antes da abdicação. Ao assumir a função, o “Patriarca da Independência” manteve os professores que já eram encarregados da educação do pequeno monarca e designou frei Antônio de Arrábida como diretor de seus estudos. Com a destituição de Bonifácio, em dezembro de 1833, a Regência nomeou o futuro marquês de Itanhaém como o segundo tutor. Frei Pedro de Santa Mariana foi escolhido, então, para dar continuidade à gestão dos estudos de Pedro II.

Supõe-se que ele tenha exercido influência intelectual e moral sobre o garoto por meio das atividades e das oportunidades do dia a dia. O mesmo ocorreu com D. Mariana. Aia do imperador até sua maioridade, ela foi uma espécie de segunda mãe do menino. Carinhosamente chamada de Dadama, compôs em 1830, quando o pequeno Pedro ainda começava a se aventurar no universo da leitura, uma Introdução do pequeno catecismo histórico a S. A. I. D. Pedro de Alcântara.

Moral e religiosidade, como se vê, eram temas recorrentes naqueles exercícios de caligrafia. Em 9 de junho de 1835, o chefe da nação copiava em francês: “A religião cristã é o mais belo sistema de moral e de felicidade. Ela enriquece a alma de todas as virtudes, ela a amplia, ela a faz amar tanto quanto é possível amar, e fornece essa paz doce, profunda, inalterável; essa paz que o mundo não pode nem dar, nem tirar, que nem mesmo conhece; enfim, essa paz que nos torna amigos dos outros e de nós mesmos”. As virtudes cristãs e sua importância na construção de uma cultura pacífica entre os homens foram princípios que nortearam o caráter de D. Pedro II.

O material produzido para a formação do jovem era vasto. Em 1838, o marquês de Itanhaém elaborou as Instruções para serem observadas pelos Mestres do Imperador na Educação Literária e Moral do Mesmo Augusto Senhor. No artigo 4, o tutor esclarece que “deverão os Mestres se desvelar para mostrarem ao Imperador palpavelmente o acordo e harmonia da Religião com a Política, e de ambas com todas as ciências”. As lições de caligrafia apontam para o cumprimento dessa instrução, pois além das lições morais, os preceitos da política também tinham seu espaço garantido nos exercícios. O futuro do Império do Brasil havia sido depositado na educação de D. Pedro II. Ela abarcava princípios iluministas, humanistas e moralistas. A consolidação do Estado brasileiro e a preservação do único regime monárquico das Américas demandavam aquilo que se acreditava ser um monarca bom, sábio e justo. Nas tarefas, o pequeno Pedro copiava repetidas vezes: “Nada é mais gratificante do que o prazer de fazer o bem”. Ou ainda: “A sabedoria é mais estimável que as forças; e o homem prudente vale mais que o valoroso”. E em 5 de julho de 1836 escrevia em francês: “Quanto mais se é poderoso, rico, feliz, bem-nascido, mais devemos estar a praticar a justiça, se quisermos passar por um homem de bem”.

Em meio aos dilemas familiares e nacionais, é possível que a dedicação aos estudos tivesse deixado de ser apenas uma árdua obrigação para se tornar um costume. Ou, ainda, uma espécie de refúgio dos problemas que atormentavam aquela jovem liderança nacional. Num de seus exercícios caligráficos, Pedro II se punha a escrever repetidas vezes uma frase provavelmente oriunda do pensamento aristotélico: “A felicidade é um hábito”. Antes mesmo de refletir filosoficamente sobre o conceito de felicidade, o imperador do Brasil já parecia condicionado a entendê-la como algo que não se adquire pelo simples fato de almejá-la. Mas que, assim como o aprimoramento da caligrafia, é construída pela dedicação, persistência e repetição.

Fonte: Revista de História

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